segunda-feira, 27 de junho de 2011

Agora eu posso falar?

Uma hora eu estava em Parnaíba, comendo um churrasco, rindo alto e olhando a lua com pessoas do meu trabalho, de repente um telefonema, o ônibus, o avião e eu estava em Pernambuco em meio a tantas lagrimas que as minhas não fariam diferença.

-Pode falar, vovô, estão todos em silêncio... Mas ele não queria falar mais nada, não queria mais escrever.

Conhecia mais meu avô por cartas. Histórias longas, escritas com letras muito bem desenhadas que em nada lembravam as minhas. Lembro que quando era mais nova tinha até preguiça de ler, mas com o tempo, as cartas tornaram-se um prazer. Mas não eram dele, dizia. Assinava Salustiano.

Meu avó era autodidata, sabia de tudo um pouco aquele senhor. Inglês, Francês, Eperantum, era tudo simples para quem conhecia a origem das palavras, dizia.

E meu avo também tocava órgão. E por vezes nos amanhecíamos ao som daquelas belas canções... se bem que nem todos gostavam. Deram fones de ouvido uma vez, mas ele não se adaptou. Gostava de tocar bem alto, nem que fosse pra ouvir os reclames da vovó, que queria dar conta da vida dos filhos e netos.

O escritório dele ficava no canto da mesa, ali ninguém mexia, ninguém limpava. Era o espaço dele. Posso falar? Vou contar uma história. Interrompia ele os mais diversos assuntos para comentar alguma coisa. O silencia precisava ser absoluto, o que não durava muitos, já que os primos corriam pela casa numa energia sem fim. Ai ele se zangava e dali adulação pra ele terminar “o causo”.
 
Passei pouco tempo com o meu avô Pedro, mas o reconheço nos meus textos longos e na forma de olhar para as coisas belas. Eu o reconheço no silencio do meu pai, nos gestos do meu tio, nos zelos das minhas tias, no respeito da minha avó...

Certa vez selecionei textos do Jardim, do Manual, do Cobracomasa e do Poemas  e enviei para ele. Grata foi a minha satisfação ao saber que ele não so leu mas comentou todos.

Era assim meu vovô Pedro Vieira, tão longe e tão presente.

Bença vovô!

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